No último post, falei sobre como a IA está tornando o trabalho de desenvolvimento mais intenso — mais tempo pensando, menos tempo codando. Mas e quem gerencia esses desenvolvedores? Se o dia a dia do dev mudou tanto, o que acontece com o papel do Engineering Manager?

Essa pergunta me persegue faz um tempo. Sou EM há anos, lidero times no Nubank, e não tenho mais certeza de que o playbook que aprendi ainda serve.

Quando os devs entregam 2x ou 3x mais, o que sobra para o EM fazer?

A promessa da IA era clara: devs mais produtivos. E essa promessa se concretizou. O que não estava no script é o que isso faz com o papel de quem gerencia esses devs.

Antes, uma parcela significativa do tempo do EM ia para acompanhar entregas, garantir que o código estava saindo, remover bloqueios operacionais. O dev passava horas implementando; o EM ajudava a priorizar e desbloquear.

Agora? O dev decide, a IA implementa, o dev revisa. O ciclo é rápido demais. Se o EM continuar tentando “acompanhar o código” ou ficar no meio do fluxo de implementação, vira gargalo. Ou pior: vira ruído.

A pergunta que me faço é: será que a parte que “sobra” para o EM é justamente a que sempre deveria ter sido prioridade?

O que ganha e o que perde importância

Não vou sugarvar: algumas skills do EM perdem relevância. Outras passam a ser críticas.

O que perde força:

O que ganha força:

Como um dev sênior vê a mudança no papel do EM

Resolvi validar essa visão com colegas que ainda estão na ponta do código. A pergunta foi: “Com a IA, o que você espera mais (e menos) do seu EM?”

A resposta foi surpreendentemente consistente:

“Quero menos reunião de status. Se eu estou entregando mais, não preciso explicar cada passo. O que eu preciso é de contexto: por que isso é prioritário? Como isso se conecta ao que a empresa quer? E de alguém que me proteja quando vierem pedir o triplo porque ‘agora com IA vocês conseguem’.”

Outro dev disse:

“O EM que só sabe de processo e Jira está obsoleto. O que eu quero é alguém que entenda o negócio, que me ajude a crescer e que remova os bloqueios políticos — não os técnicos. Os técnicos eu e a IA resolvemos.”

E um terceiro:

“Antes eu achava que EM era sobre garantir entrega. Hoje acho que é sobre garantir que a gente não se perca. Com tanta produtividade, é fácil virar máquina. O EM deveria ser quem lembra que somos pessoas.”

Essa última frase ficou comigo. O papel do EM migra de “garantir output” para “garantir que o output faça sentido e que as pessoas sigam bem”. É uma mudança de identidade, não só de tarefas.

O que EMs devem fazer para se adaptar

Se você é EM e está sentindo que o chão está se movendo, algumas práticas ajudam:

Uma visão otimista (e realista)

Sou otimista sobre o futuro do EM, mas com os pés no chão.

O otimista em mim acredita que a IA libera o EM para fazer o que sempre deveria ter sido o foco: desenvolver pessoas, conectar trabalho a propósito, criar times que pensam e decidem. O EM deixa de ser “chefe de produção” e vira “arquiteto de times”. Isso é mais desafiador e mais gratificante.

O realista em mim sabe que a transição será difícil. Muitos EMs foram promovidos por serem excelentes em coordenação e acompanhamento. Essas skills não morrem, mas mudam de peso. Quem não se adaptar pode se sentir obsoleto ou deslocado. Empresas que não investirem em desenvolvimento de liderança vão ter EMs perdidos, times exaustos e expectativas insustentáveis.

O caminho não é voltar atrás — é avançar. O EM do futuro é menos operacional e mais estratégico. Menos “quantas tasks?” e mais “qual impacto?”. Menos controlador e mais capacitador.

No fim das contas, nosso cérebro ainda é humano. E times de humanos ainda precisam de alguém que cuide deles — mesmo quando as máquinas codam cada vez mais rápido.